Especialista fala sobre pré e pós-embarque para intercambistas da Birds

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Especialista fala sobre pré e pós-embarque para intercambistas da Birds

Olha que texto interessante que compartilhamos de artigo da Andrea Sebben, psicóloga que presta serviços de preparação e orientação pré e pós embarque para intercambistas da Birds. A matéria foi adaptada de texto de Eliane Brum.

Convivo com adolescente há 20 anos. Amo eles. Sou fascinada por essa época da vida onde não se é mais criança, mas tampouco se é adulto – ou seja, uma das fases mais únicas, efervescentes e rápidas da vida.
Vejo-os também como a geração mais preparada de todas, – e, ao mesmo tempo, a mais despreparada. Preparada do ponto de vista das habilidades, despreparada porque não sabe lidar com frustrações. Preparada porque é capaz de usar as ferramentas da tecnologia, despreparada porque despreza o esforço. Preparada porque conhece o mundo em viagens protegidas, despreparada porque desconhece a fragilidade da matéria da vida. E por tudo isso sofre, sofre muito, porque foi ensinada a acreditar que nasceu com o patrimônio da felicidade.

Estudam em bons colégios, vivem em absoluto conforto, fazem intercâmbio em países fantásticos! Sem dúvida eles têm muito mais do que seus pais jamais sonharam ter. Ao mesmo tempo, crescem com a ilusão de que a vida é fácil. Ou pior ainda, que merecem facilidades. Basta apenas que o mundo reconheça seu direito adquirido.
Tenho me deparado com intercambistas que esperam ter na host family uma continuação de suas casas – onde pai ou a mãe devem ser complacentes, que tudo concedem. Onde? Aqui no Canadá, na Austrália, na Nova Zelândia??? Oh, não – nesses países a meritocracia reina absoluta.
Nossos brasileirinhos foram ensinados a pensar que merecem, seja lá o que for que queiram. E quando isso não acontece – porque obviamente não acontece – sentem-se traídos, revoltam-se com a injustiça e boa parte se emburra e desiste. Desiste do intercâmbio, da dificuldade, da briga e portanto – da conquista.
Como esses estreantes na vida adulta foram crianças e adolescentes que ganharam tudo, sem ter de lutar por quase nada de relevante, desconhecem que a vida é construção – e para conquistar um espaço no mundo é preciso lutar. Com ética e honestidade – e não sob ameaças ou aos gritos. Como seus pais não conseguiram dizer, é o mundo que anuncia a eles uma nova não lá muito animadora: – Viver é para os determinados. Viver feliz é para os que merecem.
Por que boa parte dessa nova geração é assim? Penso que este é um questionamento importante para quem está educando uma criança ou um adolescente hoje. Nossa época tem sido marcada pela ilusão de que a felicidade é uma espécie de direito. E tenho testemunhado a angústia de muitos pais para garantir que os filhos sejam “felizes”. Pais que fazem malabarismos para dar tudo aos filhos e protegê-los de todos os perrengues – sem esperar nenhuma responsabilização nem reciprocidade. Eu amo esta palavra: reciprocidade.
É como se os filhos nascessem e imediatamente os pais já se tornassem devedores. Para estes, frustrar os filhos é sinônimo de fracasso pessoal. Mas é possível uma vida sem frustrações? Não é importante que os filhos compreendam o desenvolvimento pessoal através da responsabilidade e do esforço? Existe alguém que tenha subido ao pódio nesta vida para celebrar conquistas sem passar por isso?
Nossos adolescentes brasileiros, em sua maioria e como bons representantes de nossa cultura parecem desprezar o esforço. Preferem a superioridade dos sobrenomes ou contas no banco. O valor está no dado, naquilo que já nasce pronto. Dizer que “fulano é esforçado” é quase uma ofensa. Ter de dar duro para conquistar algo parece já vir assinalado com o carimbo de perdedor. Esforçar-se é, no máximo, coisa para os filhos da classe C, que ainda precisam assegurar seu lugar ao sol.
Da mesma forma existe a crença – não menos fantasiosa – de que é possível viver sem sofrer. De que as dores inerentes da vida são uma anomalia e, como percebo em meus amados adolescentes, uma espécie de traição ao futuro que deveria estar garantido. Pais e filhos têm pagado caro pela crença de que a felicidade é um direito. E a frustração um fracasso. Talvez aí esteja uma pista para compreender a geração do “eu mereço”.
Basta andar por esse mundo para testemunhar o rosto de espanto e de mágoa de jovens ao descobrir que a vida não é como acreditavam. Nem imaginam que viver é também ter de aceitar limitações – e que ninguém, por mais brilhante que seja, consegue tudo o que quer. Se os filhos têm o direito de ser felizes simplesmente porque existem – e aos pais caberia garantir esse direito – que tipo de relação pais e filhos podem ter? De subserviência. Pais viram funcionários de filhos patrões-exploradores.
Aos filhos cabe buscar a felicidade prometida no parto – e, como não conseguem, passam a exigir cada vez mais de tudo, especialmente coisas materiais, já que estas são as mais fáceis de alcançar. Aos pais cabe fingir ter a possibilidade de garantir a felicidade, o que sabem intimamente que é uma mentira pois eles mesmos não são felizes nesse acerto. Pais fazem de conta que dão o que ninguém pode dar, e os filhos simulam receber tudo o que é precisam.
O resultado disso é pais e filhos angustiados que mergulham repentinamente não na frustração que move para frente, mas aquela que paralisa, no momento onde dizem: -E agora, Andréa, o que vamos fazer?
Jogá-los imediatamente na vala da realidade: deixá-los assumir a narrativa da própria vida com todos seus percalços e precisamente, sem nenhuma segurança. Quando digo aos pais “Esqueçam os seus filhos!” me divirto com o olhar aturdido da turma, como quem diz: Do que ela está falando?
Estou falando que seria revolucionário se os pais entendessem que tão importante quanto um bom intercâmbio é dizer no dia do embarque: “Te vira, meu filho. Você sempre poderá contar comigo, mas essa briga, esse sonho – é teu”. E ao soltar o filho, definitivamente das amarras do conforto e garantias de felicidade ele poderá finalmente, ser feliz de verdade.
Texto adaptado de Eliane Brum